Preto-e-branco

Uma das lembranças mais tristes da minha infância é uma padaria. Como não tinha espaço no colégio, que naquela época era bem menor do que é hoje, as crianças da turma de teatro iam ensaiar no andar de cima da padaria. Todas elas, menos eu.

Com oito anos, não havia ainda na minha vida um anjo chamado mãe, e eu morava com a minha tia. Ela não tinha tempo para estas coisas, e eu chorei no dia da matrícula. No final do ano, a apresentação era de Pluft, o Fantasminha Camarada, uma história muito bonita sobre um fantasminha que não queria mais provocar medo nas pessoas. Minha melhor amiga na época chamava Priscila, e ela me chamou pra vê-la subindo no palco.

Na semana passada, voltei para o mesmo colégio, que é onde acabei me formando no terceiro colegial, muitos anos depois. A noite do teatro não é mais em cima da padaria (que hoje é uma escola de francês), mas em um palco armado no meio da quadra. Os atores-mirins usavam microfones. O diretor sorria orgulhoso. O mesmo que, depois, quando eu ganhei um anjo chamado mãe, me deu aula por anos e anos.

Tudo me trazia à mente uma lembrança boa. Mas o melhor mesmo foi a peça. A Bruxinha que era Boa, outra criação de Maria Clara Machado, a mesma autora de Pluft. Tive vontade de voltar pra cima daquele palco. Mas os tempos são outros. Só não pude deixar de notar uma coisa: se o palco não mudou muito desde que eu o deixei, eu mudei.

De uns tempos pra cá, as coisas só fazem ficar mais e mais sérias, e tudo o que eu queria do teatro hoje era brincar em cima da padaria.

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3 Respostas para “Preto-e-branco

  1. Você ainda pode atuar como se estivesse na sala da padaria, não pode?Pode.

  2. Que lindo, Pô! Bonito seu post. Tb quero brincar em um palco! Vamos em dezembro?(Po, vc conseguiu me tirar um comentário sem ironias… ual!)

  3. Ai, Pô! Que texto lindo…Você, como sempre, saber deixar o seu leitor todo arrepiado… Sério!Eu sei o quanto o teatro é importante para você e sei ainda mais como Deus foi bom em colocar a sua mãe em sua vida. Eu sei que já falei, mas reforço: a minha mãe e eu sempre choramos ao lembrar da sua bela história.Sua mãe é um belo exemplo para qualquer ser humano e ela é muito abençoada por ter você como filha.Então, só posso dizer algo = do fundo do meu coração, espero que a sua história esteja rechedada, cada dia mais, de felicidade e que o teatro possa ser o eterno elo entre você e a sua mamãe.Beijos! 🙂

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