Nos Tempos do Cólera

Porque é tão difícil encontrar uma história que vale a pena ser contada? Hoje, assistindo ao filme O Amor nos Tempos do Cólera percebi finalmente o óbvio: a questão não é a história a ser contada, mas a maneira que se conta.

Explico. Gabriel García Márquez constrói um livro cheio de magia em nuances delicadas ao tratar da história de amor de Florentino Ariza por Fermina Daza, uma paixão que durou 51 anos, 9 meses e quatro dias, e atravessou uma Cartagena tomada pela cólera, doença maldita transmitida por qualquer contato com o sangue das vítimas.
São mais de 500 páginas deliciosas, uma saga romântica que traduz uma doença ainda mais poderosa e incurável: o amor eterno. Se isso existe mesmo? Claro que existe! Tanto é que tomou Florentino Ariza e Fermina Daza, como há de se concluir depois desta arrebatadora aventura.

Nas telas, a história é diferente. Não que o filme não valha a pena a visita ao cinema mais próximo. E como vale! O problema está em duas escolhas que o diretor fez quando estava pensando em como recontar uma história tão mágica e repleta de tipos tão caros à literatura de García Márquez. A primeira delas: a língua. Mike Newell cometeu a heresia maior de transpor para o inglês, por motivos comerciais, o texto de um autor que é símbolo máximo das letras espanholas. O resultado está a um passo da catástrofe: como os atores, por exigência de García Márquez, são todos latinos, a mistura de sotaques é insuportável a ponto de estragar belíssimas cenas deste longa.

Tocamos aí na segunda escolha de Newell: o elenco. Mais pobre seria díficil, com duas exceções revigorantes. Fernanda Montenegro está mais do que emocionante como matriarca da família Ariza. Sua Trânsito Ariza é a encarnação mais perfeita de um tipo misterioso e complexo da literatura de García Márquez: o feminino. Vale a pena cada centavo daquele ingresso. Mas por isso eu já esperava. O que me admirou mesmo foi Javier Bardem, no papel principal de Florentino. Um ator econômico, na medida certa para o taquigrafista tímido que desconta as dores do amor eterno com as mulheres que encontra em prostíbulos por toda a Cartagena. Um espetáculo de interpretação.

É difícil ter como compração um dos maiores gênios da literatura mundial, considerado “infilmável” por tantos diretores. O resultado, portanto, é mais do que satisfatório para qualquer um que queira conhecer o amor irrefreável de Florentino Ariza, e se apaixonar por uma história tão fantástica quanto real. Pelo conjunto da obra, os tropeços da língua inglesa e o desempenho de alguns atores são apenas isso, defeitos que deixam uma marca: o lamento de que poderia ter sido ainda melhor.
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Uma resposta para “Nos Tempos do Cólera

  1. Clap Clap Clap!Que texto maravilhoso, Vanessa!Sério…Parecia uma bela de uma crítica/resenha de algum jornal bem cult – há dados, há explicações, há informações…Gostei muito mesmo!Mil vezes melhor do que o texto de alguns professores picaretas que tentaram ensinar Jornalismo Cultural lá na UniCásper.Parabéns!Se você continuar desse jeito, logo se tornará uma jornalista de primeira – todo mundo quererá você…Hummmm!E o seu texto é muito bom mesmo!!!Fiquei com vontade de ver o filme e ler o livro!Fenomenal!Beijos :)PS= Feliz Ano Novo!

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