Roda da Fortuna

O primeiro dia de aula da minha vida veio tarde demais: aos seis anos. Tarde, digo, porque a esta altura eu já estava corrompida. O esquema autoritário imposto pelo jardim da infância, este bosque selvagem de pequenos a solta no parquinho da Branca de Neve, não fez parte da minha vida.

Entrei pela porta do Colégio Guilherme Dumont Villares pela primeira vez para cursar a primeira série do Ensino Fundamental. A demora foi opção dos meus pais, que preferiram ministrar a pré-escola em doses caseiras, homeopáticas e isentas de contato social. Resultado: eu não sabia o que era um gira-gira.

Como a leitura era uma habilidade que não me faltava, um glossário seria bastante útil na hora do intervalo. Nenhuma criança reconhecia minha existência abertamente – eu era aluna nova, portanto, contagiosa –, logo poderia passar horas investigando o que eram aquelas formas coloridas. Fui criada dentro de casa, com grades demais entre eu e a rua para que minha mãe me decidisse levar a um parquinho.

Resolvi sentar em cima para ver se emitia algum som. Nada. Mexia para lá e para cá, num balanço gostoso. Minha ousada experimentação foi interrompida bruscamente pelo maior dos garotos que eu já tinha visto. Quebrei um dente na volta mais rápida, quando fui jogada em ritmo alucinante – pelo menos para os meus seis anos e pouca vivência em assuntos de perder o fôlego.

Visivelmente abalada, a professora não conseguia resolver a situação. Fui eu, do alto da minha experiência com dentes ausentes (havia perdido dois de leite no mês anterior) quem sugeriu uma ida ao dentista. Não fui acatada, claro. A tal tia Vera insistia na idéia de um telefonema para a minha mãe, enquanto discutia o assunto com a coordenadora. Mas, como já mencionei, era tarde demais para a doutrinação. Autoridade, se não ensinada até os seis anos, difícil que seja compreendida mais tarde.

Peguei o Fernando pela mão, abri o portão do colégio, e ia descendo até a avenida – jurando que havia um dentista em algum lugar por ali – quando ouço gritos desesperados do segurança que deveria estar vigiando o portão e da tia Vera atrás dele. Não tive dúvida: comecei a correr na direção contrária. Não fosse pela prudência inconveniente de meu amigo, teria sido ousada o suficiente para conseguir um japonês qualquer com jaleco que lhe conferisse conhecimento para mexer no meu dente.

Mamãe e papai chegaram, carregando consigo suas cruzes de preocupações, como é exigido em toda escola que só aceite família de respeito. Fui para o dentista, o que sempre é traumático, não importa o tipo ou o jaleco do japonês. Não doeu. A boca inchou um pouco, mas não doeu. E o Fernando dançou comigo no baile de formatura.

Anúncios

3 Respostas para “Roda da Fortuna

  1. Muito, muito bom, Pô!Como você consegue escrever algo assim, se matando de trabalhar como você tem feito?Algo me diz que alguém aqui ainda dá um jeito de entrar para a posteridade =)Eu não tive baile de formatura – se tivesse, teria ido com um repetente surfista maconheiro e futuro aluno de PP da São Judas.E definitivamente não lembro de quando entrei na escola. Sei que não deve ter sido muito bom – no começo, os relatórios das professoras diziam que eu tinha muitos amigos, era lider e tal… pouco depois eu já era tímida e isolada. A escola fez bem pra alguém?BeijosPS: desculpa, eu usei seu comentário para ficar falando sobre mim… da próxima vez me esforço mais…

  2. Ai! Que texto lindo, Van!Sério! :DÉ incrível como você consegue fazer um texto ser engraçado e, ao memso tempo, emocionante. Adorei!Sabe, desde os 6 meses de minha tumultuada vida, eu já freqüentava berçários. Como eu era a segunda filha e os meus pais trabalhavam – memso que só fosse meio período -, eles não tiveram dúvida e, desde muito pequena, já aprendi a viver com várias outras crianças.Mas nunca fui muito social. Tanto que, na época do colégio, tinha pouquíssimos amigos e só fui descobrir o verdadeiro significado da palavra amizade na Cásper – após enfrentar alguns bons desafios, como pessoas fura-olhos.Então, moral da história, sinta-se muito feliz. Pois eu sei que, apesar de todos os pesares, a sua adolescência foi bem agitada. E, pelo menos, você teve alguém com quem dançar a formatura do terceiro ano. No me caso, só tinha o papai e, na terceira valsa, desencanei e mandei chamar a minha mãe. Hahahahahahahaha!E o Fernando deve ser bem bacana!Saudades de você, amiga querida!!!BeijosPS= Segui o modelo da Marcondes e falei de mim também. Espero que você não fique brava!!! 😉

  3. rsrsQue vida alucinante!Tive vários tipos de expressão com ele::D 😦 :O Foi o primeiro dia de aula mais louco que eu já vi.Congratulações!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s