Greg House, 815, Wisteria Lane: Uma breve explicação

“Deixe Lost te lembrar o quão maravilhosa uma ficção televisiva pode ser”,
New York Times

Eu amo séries. Qualquer freqüentador deste blog (oi, mãe!) com um pouco de cérebro sabe disso. Já falei disso em posts diversos, vocês alias já devem estar cansados de me ouvir.

(Se é este o caso, sinta-se à vontade para ir embora. Eu consigo ser realmente enfadonha de vez em quando. Sou geminiana, nós gostamos de falar, e falar, e fal…)

Estou aqui desta vez não para defender as séries, mas para atacar as novelas (o que vai deixar a minha sub-editora com bons motivos para uma justa causa).

Ficção é a minha área. Eu até pensei que fosse jornalismo, mas não é. Jornalismo é a minha profissão, uma das minhas paixões. Ficção é aquilo que faz meu corpo se inclinar levemente em direção ao livro, ou à tela da TV, ou à telona do cinema. Lá, nesse terreno de inúmeras possibilidades, eu me realizo.

Chorei durante uma semana quando Poirot (spoiler!) morreu. O célebre detetive de Agatha Christie (belga, não francês!) é meu tio avô por parte de mãe. Frequentou jantares enfadonhos da minha família por anos. Sempre estava à mesa me distraindo enquanto a prima sacava um discurso pedante da manga da camisa. Como diz a letra melosa de Paralamas do Sucesso, ele vai comigo para onde quer que eu vá. Isto porque toda a minha educação sentimental básica foi construída com base naqueles mistérios.

De Poirot (e de sua morte genial, uma homenagem a Shakespeare na medida de uma das maiores autoras inglesas de todos os tempos) eu passei para CSI, Law & Order. Daí, um pulo para Lost, House, Desperate Housewives, Grey’s Anatomy. O que todos estes programas têm em comum? Investigação. Ao contrário das novelas brasileiras, cruzam barreiras e vão além do simples clichê que ronda a vida e a torna mais previsível, mais chata, menos suportável. Amo a ficção, mas este não é o tipo que eu quero fazer: aquele que segue a forma de gesso do confortável (por isso tenho crises de abstinência se não assisto, ao menos, uma peça de teatro por mês que me faça querer deixar o lugar aos prantos). Não gosto do confortável, do deduzível, da inverdade por trás dos dogmas espalhados por uma novela.

Os seriados, no entanto, interpretam o mundo de forma menos óbvia. Entendem a mente humana como um processo, não um projeto acabado, definido. Investigam a cada episódio (House é o primor do critério narrativo e da qualidade em diálogos) as razões que nos fazem mudar a todo momento: ou seja, o por quê de nossas escolhas, e como elas nos afetam e a quem está ao nosso redor. Quer melhor crônica da vida moderna do que Desperate?

Sinopse: uma mulher aparentemente feliz comete suicídio sem que ninguém perceba os motivos que a levaram ao ato. A partir daí, ela começa a narrar a vida de quatro donas de casas, suas antigas amigas e vizinhas, que vivem em um mundo complicadíssimo, por uma única razão: nesta vida, a aparência de felicidade é critério obrigatório para quem quiser ser incluído. Vivemos em uma democracia de direitos – em que ninguém tem o direito de definhar sob sua própria infelicidade. De ser mais profundo, de se sentir mais profundo.

Somos treinados para encarnarmos o papel de personagens planos, e não esféricos, como compete a seres humanos com mais tendência pela curiosidade de fugir do piloto automático. Uma frase de aula que um querido chefinho saca de vez em quando: no final das contas, tudo é banco. Entramos no ritmo de repetição das mesmas tarefas, dos mesmos prazeres obrigatórios, das mesmas tristezas programadas que um caixa de banco ao bater ponto e repetir incessantemente as mesmas funções.

Por mais que Tiago Santiago, Sílvio Abreu, Aguinaldo Silva, João Emmanuel Carneiro tentem, nunca vão deixar de alimentar este espírito conformista, de lançar no ar os mesmos signos de sempre. Explico: a teledramaturgia brasileira tem pouquíssimas opções de desenvolvimento. Logo, quando ganha uma oportunidade de contar sua história ao público, o autor precisa agradar ao máximo de pessoas que puder, levantando a audiência de sua emissora. Resultado: nivelamento, de linguagem, criatividade e, pior, falta de ousadia. Já, nos Estados Unidos, a quantidade de emissoras e roteiros é tanta que produz qualidade – cada autor pode buscar seu público sem cair na imbecil discussão da possível rejeição de um casal gay.

Eu não assisto a novelas. E não é porque vampiros se transformam em lobisomens na obra prima de Tiago Santiago. Mas porque mocinhos são sempre mocinhos, e vilões seguem à risca um manual. Quando me deparo com A Favorita, por exemplo, chego a conclusões tristes para a teledramaturgia brasileira:

1. Em 2004, embarcaram 48 passageiros da Oceanic Airlines, no vôo 815, que caiu em uma ilha misteriosa que une viagens no tempo, ursos polares e um vilão de olhares malvados chamado Benjamin Linus.

2. Um japonês de bochechas grandes descobre ser capaz de fazer viagens no tempo, e precisa cumprir sua primeira missão: salvar uma cheerleader para que o mundo não exploda.

3. O médico mais competente do país é também o mais detestável. Infeliz, ele odeia pacientes e só busca resolver os diagnósticos mais difíceis pelo prazer de concluir que, no final, ele sempre está certo.

4. Estas histórias são mais relevantes para a minha interpretação do mundo do que o caminho para a descoberta – e a pobreza dos diálogos que encontramos nele – de outro pretenso mistério: quem é a vilã? Patrícia Pillar ou Cláudia Raia?

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5 Respostas para “Greg House, 815, Wisteria Lane: Uma breve explicação

  1. Uau!!!Nem que eu passasse esse mês inteiro que você levou para postar de novo pensando nesse texto conseguiria escrever algo tão inteligente. Nossa!Acho que a única coisa que consigo dizer agora, assim de supetão (adoro usar supetão), é:1. Uau!2. O sbt está reprisando Pantanal. Essa é uma novela que, acredito, foge um bocado da superficialidade característica das novelas super vendáveis da Globo. Sério, vale a pena dar uma olhada quando você puder (de segunda a sexta, das dez às onze, mais ou menos).3. Quando você quiser me levar aos jardins de Kensington, estarei preparada =)4. Ainda comentarei este seu post pessoalmente, seja pelos corredores casperianos, bêbada ou depois do Sex and the City.Beijos

  2. A propósito de Agatha Christie, convido você e a todos para conhecerem dois blogs recém-lançados…A Casa Torta: O Mundo de Agatha Christiehttp://acasatorta.wordpress.comCinema é Magiahttp://cinemagia.wordpress.comUm abraço.

  3. E depois tem gente querendo entender porque é uma TU, enquanto eu tenho uma F1, F2 e F3.

  4. E ainda distorce a frase do querido chefinho… No final das contas tudo é padaria, padaria, aquele lugar onde se compra brioche de chocolate. Banco é onde vc vai acertar suas contas.

  5. Van!Até que enfim você atualizou o seu blog. Tudo bem que adoro Six Feet Under, mas já estava cansada de ver a foto da última temporada.Sou um pouco suspeita para comentar o assunto. Afinal, amo séries – no último mês, meu horário era baseado na programação da Warner e do Sony. Mas, ao mesmo tempo, meu tema de Iniciação Científica, de TCC e, agora, de Mestrado enfoca a teledramaturgia. E, através de algum tempo de estudo do tema, não há como negar que as novelas são muito importantes para a formação cultural do Brasil.Muita coisa boa já foi produzida pelo Brasil neste importante campo e não podemos nos esquecer disso. Mas, concordo contigo, atualmente tudo anda muito enfadonho, repetitivo e sem graça. O final de Duas Caras, por exemplo, foi super brochante.Acho que falta mais conteúdo na programação de nosso país… Sério! E, por este motivo, as séries dão de dez a zero.Acredito que análises do tipo são importante para o futuro da teledramaturgia no Brasil. Achpo que precisamos discutir mais o que acontece nas tevês do país todo para poder melhorar.Beijos 😀PS= É muuuuito bom te ter de volta no universo virtual!

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