Minha definição de intimidade

Eu quero ele comigo. Ele, ninguém mais. Ele é em quem confio, quem eu amo, para quem eu choraria abraçada como se o resto do mundo não pudesse me ouvir. É para ele que eu quero ligar quando as coisas derem certo. E quando derem errado.

Por que o mundo aconteceu pra gente e as coisas ficaram tão absurdamente distantes? Não consigo contar meus segredos exatamente porque ele é meu melhor amigo. Será que existe aquele ideal de amizade que eu tenho? Aquele em que você é só você? Em que você finalmente pode eliminar os filtros entre o cérebro e a boca? Eu não quero mais esses filtros, já estão desgastados demais.

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Cena 1

Entro em casa depois de um dia cansativo de trabalho. Pego o telefone. 3772-****.

– Oi, hoje eu me senti a pessoa mais solitária do mundo. Como se ninguém estivesse por perto. Depois do almoço, vi um cara lindo na rua. Imaginei como seria dar para ele. Você também ia achar ele bonito. Na academia tem um cara que não pára de me olhar também. Me pega lá um dia que eu te mostro. A minha mãe ligou depois. Não consegui falar com ela porque esqueci de dar o dinheiro que estava na minha carteira pra ela. Fiquei me sentindo culpada porque ela não tem dinheiro pra almoçar hoje. Meu mundo caiu. Pensei em você.

Desce luz. Saída de cena

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Cena 2

Sábado de madrugada. Telefone toca. Única mulher na sala não atende, a mesma que estava lá na cena 1. Olha para o telefone. Digita 3772-****. Ouve pacientemente a mensagem da secretária eletrônica.

– O meu aniversário nunca me traz boas lembranças. Porque eu preciso parecer feliz. Porque eu sempre preciso parecer feliz. Existe mais coisas no mundo do que a felicidade. Talvez eu devesse escrever isso no meu blog. Você nunca lê meu blog. Assim, nunca teria que te falar tudo isso. E você não ficaria pensando em tudo, não tentaria evitar situações desagradáveis, não se afastaria gradativamente de mim, como vai acontecer quando ouvir esta mensagem. Você não gosta de sinceridade, nem de espontaneidade. Gosta que eu seja eu mesma só com você, mas até certo ponto. Até o limite confortável. E não sei se você já foi você mesmo comigo. Estive no trabalho o dia todo, não consegui te ligar antes. Não consigo mais te ligar. Porque eu sei um segredo seu que você não quer me contar. Eu estou disposta a contar pra você quantas vezes por semana eu me masturbo. E você não quer me dizer nem quem você é. Os trocadilhos infames são sua forma de se livrar da realidade. Você não foi sincero quando disse que confiava em mim.

Se você ouvir isso, não aja como eu acho que você vai agir. E não deixe de me avisar.

Fim de cena. Baixa cortina.

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