No fundo do baú

O sinal bateu. Mais uma vez, mais uma aula que acabou. Não era, no entanto, uma aula qualquer. Na sétima série, todas parecem iguais: oportunidades bastante convenientes de encontrar seus melhores amigos, colocar a conversa em dia e conferir um pouco de prazer a este começo de vida meio saturada de rotinas. Não aquela.

A notícia havia chegado dois dias antes. Uma professora conta pra outra que menciona para o de física, que é o maior fofoqueiro da escola. Notícia: ele estava indo embora. No meio do ano, ele interromperia bruscamente a paixão platônica da aluna mais dedicada da aula de artes. Platônica no sentido, digamos, mais sexual da palavra. Por que ele já sabia. Problema: um homem de 32 anos nunca olharia para uma garota tímida de 13. Tímida, 20 quilos acima do peso, com uma auto-estima no pé. Lembrando: 13 anos.

Portanto, o sinal bateu. Era o último intervalo em que ela passaria na frente do ateliê, ao menos três vezes, para vê-lo tirar o avental, guardar as tintas, lavar as mãos com aquele jeito apressado de fingir que não liga para os restinhos de tinta entre os dedos. Ligava. Depois de secá-las, se irritava com o azul nas unhas. Sempre o mesmo ritual, visto do lado de fora de uma veneziana.

Ela tinha 20 minutos. Desceu correndo as escadas, foi direto para o ateliê. Ele não estava lá, só seu apagador e a caixa de giz. Pegou uma caneta e escreveu na tampa de madeira. Vou sentir sua falta. Há meses deixava recadinhos ali, chegou a assinar uma vez. Ele sabia de tudo. Devia saber. Precisava saber.

Ele entrou. Viu que ela estava lá e sorriu um sorriso altivo, um quê arrogante. Chegou mais perto, bem perto. O mais perto quer alguém já tinha chegado. Lançou um olhar para o apagador e outro para ela. Ela estendeu o braço até o seu peito, onde o avental ainda sustentava o crachá. Tirou-o e colocou no bolso. Ele mudou de assunto, fugiu daquele que a gente discutia sem palavras. Disse que estava indo para o interior com a namorada, que ia dar aula em uma escola na cidade dos pais dele. Ela pensou que às vezes fazer besteiras é melhor do que não fazer. Que a cidade do interior e a escola e a namorada estariam perto por muito tempo se saísse daquela sala arrependida de ser covarde. Voltou e deu um beijo nele. Seu primeiro beijo. E ele correspondeu. Pensou nisso só mais sete vezes daquela data até hoje. Todo dia 12 de novembro, aniversário dele. Estava no crachá. No baú ao lado da minha cama.

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Uma resposta para “No fundo do baú

  1. Van!Começo este comentário com uma pergunta: quem é a atual Vanessa?Não te vejo desde o aniversário da Mari e da Elisa no Geni, no dia 12 de abril – muito tempo atrás – e tenho a sensação de que não te conheço mais.Sério!Ouço notícias tuas e não entendo o que está acontecendo contigo. Estava hoje sentanda na frente da Cásper e nem pude falar contigo – você passou voando e acho que nem me viu.O que está acontecendo contigo? Acho que há algo muito forte te incomodando e, sério, me preocupo contigo. Às vezes, sinto que estamos te perdendo, pois sei que as meninas também tão tem te visto muito.Se precisar, converse comigo. Posso entrar no MSN de madrugada ou leio os seus e-mails na hora que quiser… Sério mesmo! Não quero perder uma amiga tão querida quanto você.Agora, sobre o seu post, só posos dizer: o primeiro beijo é sempre inesquecível, principalmente quando é algo proibido e roubado. Com certeza, não há nada melhor do que roubar um beijo proibido e ser correspondido.E a vida é feita de amores assim, platônicos, proibidos e ‘calientes’. Achei linda a sua lembrança e, principalmente, a sua delicadeza com o momento. Afinal, só podemos nos arrepender daquilo que não fizemos e você, pelo jeito, não tem do que se arrepender.Para encerrar, deixou uma frase: “O inferno é perder a capacidade de amar” – Lea Waider.Aguardo notícias tuas, ok?!Beijos 😀

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