Espectro

All Star no pé, jaqueta de couro, calça jeans azul escura. Ele entrou. Ele. Um dos sonhos de entrevista desta jovem repórter, ali. Sentou na beira do palco, dois metros na minha frente. Olhou de relance para a platéia de jornalistas, cabisbaixo, pediu deculpas pelo atraso. Duas vezes. Vamos começar.

Nada, absolutamente nada nele, faz lembrar o Capitão Nascimento. Ou o Olavo, para ficar nos sucessos de massa. Graças ao bom Deus. O manual de busca de pessoas interessantes diz que é assim que se reconhece um bom ator.

Tímido, sincero, com sotaque baiano carregadíssimo, respondia a cada pergunta com desenvoltura. Sabe falar, tem opiniões consistentes, pensa sobre aquilo que diz, embora deixe transparecer certa vergonha de ter atraído todas aquelas atenções. Como se pedisse desculpas por ser importante, por despertar interesse, por incomodar.

Abalou minhas estruturas quando disse aos repórteres que o teatro era para onde ele queria retornar sempre, de onde não abria mão. Porque aqui (um toque suave no tablado) eu me lembro de quem eu sou e porque eu sou ator. Eu também.

Balança os pés, suspensos no ar por conta da altura do palco, enquanto fala. Raramente encara alguém. No caso de perguntas de praxe, prefere dar toda a atenção possível. E responde para a cadeira vazia na sua diagonal. Para o chão. Para o chão do palco. Olha no olho apenas se o assunto é sério.

Faço uma pergunta séria e descubro o por que deste pudor. Sob medida para o papel de Hamlet, Wagner me faz pensar no espetáculo. A encenação constante de tudo é a cruz inevitável que temos que carregar: só assim, detrás da máscara, a vida se torna mais suportável, mais humana. E exatamente porque este é o único jeito de esconder a própria humanidade – e tudo o que há de podre neste reino. Os olhos, no entanto, descortinam o homem.

Respondi, dentro de mim, a última pergunta que dedicaria (mas não o fiz) ao ator: o que ele tem de novo para me mostrar sobre Hamlet? Por que montar a peça mais conhecida do mundo hoje, aqui, em São Paulo, e me fazer ter a sensação de que saí com uma nova leitura do príncipe Dinamarquês?

Simplesmente porque a mais teatral de todas as peças de Shakespeare inventou o homem moderno: aquele que não pode abrir mão de estar no palco, que não consegue se livrar da máscara. Aquele que não volta para a coxia.

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2 Respostas para “Espectro

  1. Momento Janice (de friends): OH MY GOD!=OVocê entrevistou o Wagner Moura?! Que inveja (branca!) de você… Eita mulher sortuda! Só não tenho um infarto na frente do computador, porque não foi o Giane… (suspiro!)Se um gato como esse aparecesse hoje na minha frente, agarrava e não deixava sair nunca mais de minah vida…Hahahahahaha!Van, você é definitivamente o meu exemplo de jornalista. Se eu trabalhasse ainda nesta profissão, juro que queria ser como você… Sério!BeijosPS= Depois quero saber de tudo… Mas quero ouvir PESSOALMENTE! 🙂

  2. Wagner Moura,Wagner Moura,Wagner Moura!Meeeeeu Deus! Vou transferir meu curso de Letras pra Jornalismo depois dessa. huahuahuahabjo! 🙂

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