Desencontro

Ele trocou de óculos. Quando? Por quê? Onde eu estava quando isso aconteceu? Quando ele entrou na loja e pediu uma armação que o deixasse velho e inteligente? Gostava mais da outra: o fazia parecer cansado e inteligente.

Estava com a mulher. De mãos dadas, entrou na ótica. Não queria parecer procupado com a futilidade. Mas estava. Que poeta jornalista deixaria transparecer sua vontade incontrolável de parecer algo a mais do que é? Escorpianos são fúteis, ligam para a aparência, embora os mais intelectualizados neguem até a morte.

Sim, eu sei o dia em que ele nasceu. Pode parecer sem importância. Não é. A primeira coisa que se pergunta para uma pessoa é o nome. A última, o dia e ano de seu aniversário. Depois disso, as perguntas deixam de ser necessárias.

Perguntar esta data me faz dormir mais tranqüila, mais confiante, com a sensação absurdamente sincera de que, em um mundo tão solitário, eu tenho mais do que todos os outros. Que eu sou capaz de, um dia, ter alguém na mão de quem segurar e entrar em uma das óticas em que entramos todos os dias. Eu ainda não perguntei.

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