Não ser


Imaginemos a cena. Um diretor decide montar o maior clássico da dramaturgia mundial: Hamlet. Ok, até aí tudo bem. O problema é que ele acaba de se impor a resposta de uma pergunta essencial: o que ele tem para falar sobre o principal personagem de Shakespeare que eu não saiba? (por eu leia-se, obviamente, a humanidade)

E isto é um problema? Eu acho que não. Um espectador não tem como enfrentar Hamlet sem ter lido o texto algumas vezes. Uma montagem naturalista da peça é regredir ao século XVI, quando ela foi escrita. Um mar de referências muito maior está a disposição do artista hoje. Saber usá-las, saber codificar um clássico e extrair dele o reflexo de outro tempo, de outra época, faz a diferença entre o notável e o medíocre.

Foi assim que Aderbal Freire-Filho e Wagner Moura decidiram enfrentar o projeto. Wagner disse, modestamente, que sabia das críticas negativas pela frente. Comentou que era um projeto pessoal e que não ligava para o que os outros dissessem, estava realizando um sonho.

Isso nos leva até mim. Na porta do Teatro FAAP com uma amiga no último domingo. Pensei: a primeira crítica negativa vai ser minha. Tenho um puta preconceito com clássicos. Sempre acho que não há mais nada a se dizer, principalmente depois que a Cia. dos Atores montou Ensaio.Hamlet, o espetáculo definitivo.

Não consegui desgrudar os olhos daquele palco. A direção é tão absurdamente simples que assusta. Aderbal encontra soluções geniais em questões ridículas. Em um dos momentos da peça, por exemplo, o pai de Hamlet é representado por uma armadura no chão. Quando a armadura é retirada do palco pelos outros atores, Wagner continua pulando o lugar onde ela estava, como se permanecesse lá. Ou seja, o espectro do pai e a vontade que ele tem de fazer jus ao homem que o irmãos de Claudius foi um dia não saem de cena. Por mais que não se veja mais o rei, ele está lá, motivando cada ação.

Os atores ficam o tempo todo no palco. Não há coxia, eles simplesmente sentam nas laterais e observam a cena, se trocam lá mesmo quando é preciso. E o uso de tecnologia é pontual, evita exageros. Em determinado momento, Hamlet caminha pelo salão principal do palácio enquanto Claudius e Polônio se escondem para observá-lo. Quando Wagner entra em cena, os dois estão do outro lado do palco, conversando normalmente. E Caio Junqueira, outro dos atores da peça, entra em sua frente com uma câmera na mão, fechando em seu rosto e na capa do livro que ele lê. As imagens são projetadas em tempo real na parede do fundo. O nome do livro? Hamlet.

Além disso, Wagner faz rir. Muito. O que não é, digamos, usual quando se trata de uma das quatro peças mais sombrias do autor inglês – ao lado de Otelo, Macbeth e Rei Lear. Simples: a loucura de Hamlet é alegre, zombeteira, exatamente na medida do texto. Quando Wagner entra em cena, pulando e gritando com os demais atores, fazendo piadas com o texto, a sensação é única: por que diabos ninguém nunca pensou nisso antes?

A mesma coisa acontece com Claudius. O rei impostor é bonachão, simpático. Shakespeare chega a colocar um verso na peça que diz, literalmente, que o personagem sorri o tempo todo. Ninguém nunca havia prestado atenção em Shakespeare. O que não é muito bom quando a peça montada é dele. Pode deixar o moço meio bravo. E a platéia também, pelo menos a mais atenta. Porque em todas as montagens que eu vi até hoje (oito no total) nenhuma nunca havia colocado Claudius como Tonico Pereira faz: simpático, alegre, uma víbora escondida por detrás de uma máscara agradável.

Deixei o melhor para o final. Para interpretar Hamlet, Wagner se transforma totalmente. A voz nem lembra a do Capitão Nascimento de Tropa de Elite ou a do Olavo de Paraíso Tropical. Mas nunca é completamente um príncipe dinmarquês. Ele está atuando e sabe disso. Porque a vida é nada menos do que um ator cheio de some fúria que recita um discurso significando nada. O mundo como um grande palco em que tudo é ilusão é o grande tema de Shakespeare.

Mas, mesmo assim, Wagner se transforma. Exceto por uma cena. Nela, ele entra sem disfarces: é Wagner Moura, aquele que eu encontrei na coletiva de imprensa da peça, que anda mais curvado do que seus personagens, fala mais grosso e tem o olhar incrivelmente mais tímido, mais triste, mais reflexivo. Acontece exatamente no monólogo em que Hamlet se pergunta como um ator pode se transfigurar por causa de um personagem. “O que Hécuba é para ele e ele para Hécuba para que suas lágrimas escorram e toda sua expressão se transforme?”

Nunca vi essa cena feita de modo tão tocante, verdadeiro, com uma espontaneidade premeditada, própria do ator que já aprendeu o que sentir e em que hora sentir. Própria do ator que pensa sua arte e quer que eu o acompanhe em seu raciocínio. Não ser é sempre mais interessante do que ser. O que Hamlet é para ele e ele para Hamlet? Colegas de trabalho.

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Uma resposta para “Não ser

  1. Incrível o teu texto, as nuances, a maneira como vc interpreta os que interpretam, sobretudo a ausência das mesmices reverenciais, comuns quando se fala de Hamlet / Shakespeare. Acho que foi Hesse quem disse que Jesus Cristo não foi um herói ou um mito, mas sim um muro no qual a humanidade se projeta a si mesma através dos tempos. Com Shakespeare, Cervantes, DaVinci e outros “monstros” também é assim. Talvez por isso Hamlet acaba tendo a força de uma “bíblia”, guardadas as devidas proporções. Chega, né? rsrsrs… Beijão e saudades de vc, das suas idéias…

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