Um dia termina

Qualquer coisa.

Qualquer pessoa.

Qualquer lugar.

Um dia termina.

Acabei de assistir às cinco temporadas de Six Feet Under. Sei que não deveria mais falar sobre o assunto aqui, já que devo ter entediado metade dos meus leitores (ou seja, minha mãe, quinze dias por mês) falando sobre séries. Mas preciso prestar minha última homenagem.
Ainda não vi Sopranos, elogiadíssima. Mas sou editora de séries de tv, entendo relativamente do assunto e já vi ao menos um episódio de – eu contei outro dia, pode acreditar – 82 séries. E nunca vi nada igual.
O melhor programa de todos os tempos, um dos melhores finais de temporada que já vi. A atração, que conta a história de uma família dona de uma funerária e começa todos os episódios com uma morte, encerra sua jornada de forma emblemática, quase teatral. Não imagino um roteirista de TV escrevendo aquilo, é bom demais. Dramaturgos, sim, os bons. Roteiristas de TV? Eles (nós, já que eu quero assumir essa função um dia) pensamos em comunicar, agradar ao público, mantê-lo ligado na tela. E quase sempre escorregamos para as armadilhas do digestível. Melhor não incomodar.
Pois os incomodados que se mudem. Nos cinco minutos finais do último episódio, Claire, uma das personagens principais, parte comseu carro de Los Angeles rumo a Nova Iorque. Ela disse para a família que tinha arranjado seu primeiro emprego lá. Mas a empresa negou a contratação. E ela não avisou ninguém de que estava indo para lugar nenhum, estava sem rumo.
Enquanto seu carro roda na estrada, são intercalada as imagens das mortes futuras de todos os personagens principais. Claire, a mais jovem, cheia de vida e amigos, é a última a fechar os olhos, velha, em uma casa luxuosa, sem um único parente por perto. Morremos todos sozinhos.
Aprendemos a gostar dos Fisher, a conhecer os pontos negativos, positivos e turbulentos de cada um deles. Apesar do afeto, entendemos perfeitamente porque Claire vai embora. Ela simplesmente não pode ficar lá. Porque eu não posso ficar aqui. Porque você não pode ficar mais aí.
Se experimentada adequadamente, a vida é insuportável. Por isso Claire dirije, para fugir dela mesma que, teimosa, a acompanha. É impossível evitar a continuidade do mundo. O tipo de estrada não muda o carro. Seja em Los Angeles ou em Nova Iorque, Claire vai levar consigo, para sempre, toda a amargura que vem com a respiração. Alguns disfarçam esse pesar que permanece no ar o tempo todo. Dá-se a isso o nome de mediocridade.
E é exatamente por causa dos medíocres que eu sou viciada em histórias que não me chamam de idiota. Que não têm a pretensão de me esconder uma verdade indiscutível: a dor é grande e não diminui. O tempo não cura, só apodrece.
Por isso meu respeito, minha total admiração e minhas palmas para Alan Ball, o criador de Six Feet Under, que fez questão de me elogiar, de me achar inteligente, de me pegar pela mão e de me apresentar a personagens que têm a instabilidade como linha de conduta. Pessoas como eu, só que melhores. Porque nem por um só minuto qualquer um dos Fisher pensou em ser linear, plano. Eles sabem que o mundo só é interessante porque é contraditório. Eu ainda não tive coragem de largar a máscara na gaveta e enfrentar tudo por causa de uma verdade como essa. O receio ainda existe. Um dia termina.
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4 Respostas para “Um dia termina

  1. Acho que já falei isso por aqui, mas repito: adoro Six Feet Under e acho que sou um pouco suspeita para comentar qualquer coisa!Acompanhei a série pela HBO e garanto que a animação a cada temporada era maior. Era muito boa a sensação de saber que ia começar uma tmeporada nova, a cada ano.Eu sempre ficava muito animada!Quando chegou à temporada final, devorei cada capítulo, tentando absorver o máximo de informação possível.O capítulo final é fenomenal. Choro muito quando vejo, pois – pela primeira vez – uma série conseguiu se encerrar com muita classe, bom texto e trilha sonora perfeita, ao mesmo tempo que contou o rumo de cada um dos personagens.A estrada que Claire passa é muito simbólica! E é muito bonita a mensagem final… Amo muito esse episódio!Van, saiba que fico muito feliz em saber que você gostou tanto assim de Six Feet Under!!!BeijosPS= Saudades ENORMES! 🙂

  2. Você não esqueceu de citar a participação da Mimosa nisso?

  3. Lindo. Gostei muito da forma como você escreveu essa “resenha”, de verdade. Faz jus ao que a série é, e ao que ela nos concede, parabéns.

  4. Sou leitor novo com pouco a acrescentar:”a dor é grande e não diminui. O tempo não cura, só apodrece.” BOM, muito bom. alguém tinha de dizer

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