Quero gigantes no lugar de moinhos

“- Espero que você já tenha decidido o que vai deixar para trás na sua jornada.

– Como, senhor?

– Dom Quixote abriu mão de todas as suas propriedades para comprar livros com histórias de cavalarias e lutar contra moinhos de vento. Você já sabe do que vai abrir mão?”

Diálogo da série de TV Eli Stone

Um clássico é sempre um clássico. Aquela história que eu canso de repetir: quando um diretor resolve montar um desses, se impõe a resposta: o que ele tem para acrescentar a uma obra tão aclamada?

Tanto foi dito, escrito, falado, comentado, resenhado, criticado. Por que eu me impressionei com a montagem Quixote, da Cia dos Imaginários, em cartaz no Teatro Denoy de Oliveira? Porque eles sabem que tudo foi dito e comentado. Também sabem que não foram eles que disseram. Não fomos nós também, que estamos na platéia. E todo mundo merece a chance de dizer.

Sem nenhuma fala durante mais de uma hora, eles contam a história do louco que deixou a vida para trás e resolveu construir uma outra estrada para o mundo que tinha pela frente. De tanto ler histórias do tipo, pegou seu próprio cavalo (aqui uma bicicleta), sua armadura (um colete salva-vidas) e a clássica espada (um pomposo guarda-chuva). Foi lutar contra seus moinhos de vento, para ele gigantes.

Acompanhe o significado do páragrafo acima: não é preciso muito para ir além do comum, do clichê, do que a maioria das pessoas não tem a capacidade de imaginar. O guarda-chuva aqui joga na minha cara que eu sou medíocre. Qualquer um com um mínimo de inteligência negaria um pingo de realidade pelo poço profundo da ilusão. Viver na ficção, no encantamento em que vive Quixote, seria a maior das dádivas.

É por isso que, quando é obrigado a abandonar suas cruzadas, o cavaleiro definha e morre. Afinal, por que não o fim? Por que aceitar algo tão sem sentido quanto a vida? O verdadeiro louco é quem nega essa verdade, quem nega a existência do mago que sai por aí enfeitiçando tudo para que pareçam coisas absolutamente normais. É este mago que faz com que nós vejamos moinhos. Quixote enxerga gigantes, o que eles são na verdade.

O trunfo da montagem é simplificar a história sem torná-la simplista. Assistir ao espetáculo após a leitura é algo infinitamente mais rico. Beatles faz parte da trilha sonora. Unir Beatles e Cervantes já é, por si só, um mérito e tanto. Além de me lembrar que clássicos não apodrecem, tenham eles 40 ou 400 anos.

Reproduzo aqui o que diria Enrique Diaz, diretor eleito O Foda da Década pela redação deste blog: Para sobreviver, clássicos precisam ser constantemente desconstruídos.

Quixote não é pintado como um maluco triste e pesaroso, como um pobre coitado de quem devemos ter dó e oferecer ajuda. Interná-lo para que não atrapalhe a sociedade, as pessoas normais. Há uma razão para que ele seja o personagem principal aqui. Cervantes tinha uma opção, digamos, para roteirizar isso. Poderia ter colocado Sancho Pança como o protagonista que tem sua jornada ameaçada por um louco que resolve ter visões a todo momento (e aí criar a comicidade da situação). É mais interessante, no entanto, ser Quixote do que Sancho. Eu prefiro manter minha espada à mão e viver enquanto ainda conseguir enxergar gigantes.

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2 Respostas para “Quero gigantes no lugar de moinhos

  1. Ô moça querida! brigada pelo carinho!

  2. Viver na ficção, no encantamento em que vive Quixote, seria a maior das dádivas…isso traduz muito doque sentimos…

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