Decepcionante

Eu esperava mais do mundo. Achei que, quando saísse de casa, uma banda pop com um arranjo gostoso e bem ritmado começaria a tocar. Enquanto eu descesse a rua da minha casa, o volume iria aumentando até que eu sumisse no horizonte. Sumisse de mim mesma. Achei que eu poderia sumir de mim mesma – que teria um descanso, mesmo que momentâneo – da minha própria vida.

Só voltaria a me ver quando já estivesse dentro da sala de aula. Aqui a música abaixa até que o professor – um grisalho poeta francês de maneiras arrogantes – ministrasse o discurso da minha vida. Ele faz uma pergunta. Só eu sei a resposta. Ele se admira com a minha inteligência. Este vai ser o gancho para que a gente se aproxime lá pela metade da história. 
Não preciso me acompanhar até o almoço. Muito menos pelo ônibus lotado do meio-dia. Quando me dou conta já estou no trabalho, com o computador ligado, escrevendo frases que mostram (e provam, irrefutavelmente) o meu gênio brilhante, apesar da minha pouca idade.
No momento seguinte eu já estou atendendo o telefone. É ele. Quer me ver, ainda hoje. Estou entrando no retaurante. Vestido, sandália preta. Ele está na mesa me esperando. Não. Volta. É uma livraria, não um restaurante. 
Ele está sentado em um dos sofás, folheando um volume de Satolep. Enquanto passa os olhos pelas páginas, apóia o livro nas pernas cruzadas. Está de calça jeans, camisa preta, tênis. De vez em quando, se detém em uma frase. Sorri. Como se entendesse e sentisse tudo o que o escritor sentiu. Ou como se soubesse que não há o que entender. Passa para o próximo parágrafo.
Sento ao lado dele. Me olha com carinho. Diz que sentiu minha falta. Só isso. Sem expectativa, sem ficar brincando com o chaveiro na entrada da porta da minha casa, sem esperar para que ele se aproxime e me beije. Talvez eu queira o beijo. Mas eu escrevo séries. Teria que ter paciência e esperar até o capítulo 3. A câmera fecha e nós estamos conversando. Do outro lado da livraria, o professor e a esposa. Ele olha, disfarça, finge que não viu. O episódio fecha com Always Be My Baby, e com a minha risada ao fundo.
Eu deveria ser capaz de escrever minha própria história. Por enquanto, só consigo esboçar a dos outros. Ponto final. Isto foi o que me prometeram. Ninguém me disse que não iriam cumprir.
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Uma resposta para “Decepcionante

  1. Mas a Meredith dorme com o Dr. bonitão logo no primeiro episódio. Há esperança.Te amo, Pô!Beijos

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