My Own Word



“Já dizia o ditado que a vida é aquilo que acontece enquanto você está ocupado com outros planos. Eu diria que a vida é aquilo que acontece enquanto o agente secreto que habita dentro de mim e é minha segunda personalidade lida com bombas, agentes do governo e perigos mortais.”

Ficção é vida. É só olhar para o lado que você vai encontrar: o cartaz de um filme, o livro que o garoto no ônibus está lendo, a peça de teatro em exibição do lado da faculdade. Quantidade produz qualidade. E também exige um verdadeiro espírito missionário para procurá-la.

Por isso a minha felicidade quando encontro alguma coisa que consegue, ao mesmo tempo, prender minha atenção, apelar para a minha inteligência e me surpreender. Raramente os três acontecem ao mesmo tempo em uma mesma obra. Aconteceu hoje.

Assisti a My Own Worst Enemy, série de TV protagonizada por Christian Slater que estreou recentemente nos Estados Unidos. Genial. Conta a história de Henry, um homem normal que, do dia para a noite, descobre que tem dupla personalidade. Pior: a personalidade dominante, aquela que tem certidão de nascimento e uma história real, não é ele.

Henry é Edward no documento de identidade, um agente secreto que trabalha para as forças federais dos Estados Unidos, tem um jeito sedutor a la James Bond e adora se envolver no perigo. Nove anos atrás, Edward entrou em um programa experimental que criou sua nova identidade – e de lá para cá os dois habitam o mesmo corpo.

Quando volta de uma missão, um agente especial treinado em tecnologias modernas cria as memórias que Henry vai ter daquele período e as insere em seu cérebro. Toda a reprogramação acontece por um aparelho de celular. Henry não se lembra de ter explodido uma embaixada rússia. Mas pode contar com detalhes quantas páginas do livro o gordo ao seu lado no avião para Chicago leu na ida. E como foi a (irreal) reunião de trabalho que ele teve lá. E Henry conta mesmo, para a mulher e para os dois filhos.

Henry sai de casa, vai trabalhar, seu cérebro dá um curto, vira Edward, combate o terrorismo, tem outro curto, e volta Henry sem se lembrar de nada, apenas daquilo que o governo quer que ele se lembre.

A série tem muitos triunfos. Christian Slater é um ator caça-bilheterias. Mas tem experiência suficiente para saber como deve se portar para continuar levando o público para a TV após a primeira exibição. Cativa e convence como os dois personagens que interpreta. O roteiro também é genioso. Mais do que uma história de espiões, é uma narrativa bem montada, repleta de piadinhas do gênero e deliciosas auto-ironias.

Mas o grande destaque da série é outro, mais profundo do que esta camada inicial. A discussão aqui é até que ponto a realidade em que vivemos é mesmo real. A verdade de tudo não é incontestável. E a ficção é um modo que temos de escapar dela. Aqui, é Edward que inventa Henry. O espião, cheio de atrativos em sua vida, inventa o homem comum.

Vale muito mais o que nós projetamos do mundo, a realidade que inventamos e tomamos como nossa, do que aquela que nos é imposta goela abaixo todos os dias. É possível, sim, escapar desta realidade. E não apelar para a ficção para cumprir este objetivo é angustiante a ponto de ser insuportável.

Em determinado momento do primeiro episódio, quando descobre que tudo não passou de ficção, Henry grita desesperado: “Eu preciso que minha vida volte a ser real!”. A chefe do governo norte-americano ri e devolve: “Não se preocupe, Henry. Você pensa que é real.”
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