Ateliê

Eu estava na sétima série, tinha 12 anos. Havia acabado de me mudar para um colégio novo, na rua da minha casa. Já havia visto o moço uma vez ou duas, na frente do ateliê, ou no corredor da sala dos professores, sempre com um cigarro na mão. Lindo. E artista. E lindo. E, melhor, artista.

Seu nomes era Marcos. Não me lembro do sobrenome, nem acredito que não me lembro. Ele dava aula de artes para a oitava série, ainda faltava um ano para que fossemos apresentados mais formalmente. Mas eu não deixei por menos. Escrevia na mesa do ateliê, com estilete, mensagens para ele. E sabia que eram recebidas. Deixava bilhetinhos em sua caixa de giz, que ficava dentro da sala nas suas folgas.

Ele era casado. Tinha 28 anos na época. 12 de novembro de 1972. Data de nascimento dele. Não acredito que me lembro desse número e não me lembro de seu sobrenome. Era emocionante, chegar toda quarta-feira no colégio e ficar rodeando sua sala para ver se, de repente, o encontrava. E se, nesse de repente, reconhecia nos seus olhos que ele havia lido minha carta, que sabia quem eu era. E ele sabia. Uma professora que hoje é uma amiga querida me disse na época, e voltou na história alguns anos depois.

Em novembro eu já não agüentava de ansiedade. Chegou dezembro e, na última semana de aula, descobri o impensável. Marcos – o Marcos casado e não o meu Marcos – estava se mudando para o interior com a esposa. Ia viver por lá, e deixar de dar aulas. Eu escrevi a carta mais silenciosa da minha vida naquele dia. Eu já tinha dito tudo. E, havia de reconhecer, não poderia dizer mais nada. Ele foi embora e eu nunca mais o vi.

No último dia de aula, no entanto, eu entrei à noite no ateliê, escondida com uma amiga minha que, memória imbecil, não me lembro quem era. Se pudesse escolher agora, seria a Carol, mas ela não estava na escola ainda. Mas gostaria que tivesse sido ela. Roubei o crachá dele. Está no baú da minha cama até hoje, não sei exatamente o motivo. Acho que não tenho coragem de me livrar da aventura dos 12 anos. Acho que não tenho coragem de abrir mão da menina que eu era aos 12 anos, da atriz que eu queria ser, do mundo que eu ainda tinha pela frente. E que não tenho mais.

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3 Respostas para “Ateliê

  1. Falei q só comentaria qdo viesse em casa, mas sabe q eu não me contenho qdo quero algo. E precisava comentar ^^.
    Hm… invadir o ateliê do GDV a noite pra pegar um crachá… consigo me imaginar fzd isso. Qq dia vou na Cásper antes das 18 pra gente fzr isso em algum lugar de lá, kkkk.
    Ah e outra coisa…
    Acho q aquele mundo que vc tinha na época ainda existe, vc não o perdeu. Ele só mudou um pouco assim como o nosso mundo mesmo.
    Seu mundo está aí na sua frente, vc só acha q não o tem mais pq ele se perdeu na grandeza q seu futuro se tornou…

  2. Que história triste, Pô.

    Gostei. ;o)

  3. uma pessoa que acha que é “melhor” ser artista tem obviamente uma crise.

    uma pessoa que publica isso… só pode ser a vanessa.

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