Não me diga o que eles não podem fazer

Se tudo der certo, se tudo correr como eu quero que corra, você não vai conseguir suas respostas no final da temporada. Para começar, boas ficções não oferecem todas as respostas. O mundo não é fácil e simples como você gostaria que ele fosse. A boa ficção, aquela pela qual eu suspiro, também não.

E Lost, para mim, é boa ficção. Mais do que isso, Lost tem a pretensão de tratar de um assunto maior do que a própria ficção científica, do que as viagens no tempo. Toda boa viagem no tempo, aliás, é um tratado sobre a ansiedade do homem, especialmente o homem com aspirações de transcender a própria Humanidade, em relação à merda que é não poder viajar no tempo. À merda que é ficar preso em 80 anos de tempo e espaço.

São seis temporadas descrevendo a trajetória deste tal homem angustiado. É Locke – o homem de fé – contra Jack – o homem da razão. Um e outro tentando lutar com as armas que têm para dar um sentido maior à própria existência.  Em determinado ponto da jornada, as coisas se confundem.Porque, de novo, a qualidade de uma história se mede pela capacidade que ela tem de confundir as coisas, de embaçá-las, de sugerir que não existe preto e branco, bonzinho e malzinho, herói e vilão.

O principal heroísmo de Lost, aliás, é indicar que as coisas, inevitavelmente, dão errado. Eu sou fã do drama todo e tenho um pezinho na tragédia. Então, sei reconhecer os méritos das histórias pessimistas. E a trágica – não há outra palavra aqui – trágica morte de Locke no final da quarta temporada foi o ápice da sofisticação para mim.

Mas, voltando para o sexto ano, que é o que interessa, eis meu veredicto: até o final da temporada, nós vamos descobrir que estas realidades paralelas sempre existiram. Que muitos dos problemas que nós vimos durante os cinco anos de série foram causados por elas, e que a tal casa que o Monstro de Fumaça diz que tem é sua própria realidade, para onde ele precisa voltar.

Se isso acontecer, aí sim Carlton Cuse e Damon Lindelof vão provar que estão contando a história que eu gostaria que eles estivessem contando: a do homem diante de um plano superior, diante de suas limitações, principalmente. É, limitações é bem a palavra chave.

Nesta interpretação da coisa toda, o destino não é algo nem tão determinante quando Locke pensava que era, nem tão maleável como Jack fazia dele. Não importa em que realidade você estiver e como as coisas andam por lá, os elementos mais relevantes do seu mundo continuam a se repetir. De novo, entre os extremos, surge algo maior, exatamente por não cair no fácil e simplista caminho da dicotomia. Não me diga o que eu não posso fazer. Todo o resto já está feito.

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