I Wanna Take You There

O mundo dá voltas. Na semana passada, eu estava empolgadíssima com a volta de Glee, como é possível conferir com o post anterior deste blog. Nesta, estou com vontade de escrever uma carta para Ryan Murphy com os dizeres: shame on you.

E ele com certeza deve estar muito envergonhado. O criador da comédia musical da Fox sabe escrever. E sabe ousar. Anos de Nip/Tuck nos mostraram isso tão bem que não dá para negar. Agora que está na TV aberta, Ryan continua com sua dose de sarcasmo, de politicamente incorreto, enfim, foge do discurso batido das outras séries de TV aberta. Duvida? Analise mais de dois minutos das falas de Sue Sylvester, personagem que ofendeu toda e qualquer minoria norte-americana em 14 episódios de comédia.

Desde o começo de Glee, portanto, por conta principalmente de Sue, eu defendi a série dizendo que ela não era um produto feito para adolescentes. Mas, sim, uma trama adulta sobre o universo deles, que poderia ser consumida também, mas não exclusivamente, por jovens, principalmente por conta do foco musical e da levada mais leve da história.

Redonda e profundamente enganada. E Murphy me provou isto através do – não há outra palavra – brochante episódio desta semana, The Power of Madonna, uma grande homenagem de 45 minutos à Rainha do Pop. Eu fui atrás do capítulo empolgadíssima. Madonna, como Sue deixa claro no início do capítulo, é o símbolo do poder das mulheres, da luta pela igualdade, pela ousadia feminina.

Pois a principal história do capítulo traz, enquanto o Glee Club procura ensaiar canções da musa – sempre muito bem executadas, deixemos claro – três casais tentando se acertar e passando por um momento dito importante na vida de uma pessoa: a perda da virgindade. No final das contas, os três concluem que, ou não devem fazer isso, ou devem esperar mais pelo tão anunciado e especial momento.

O ultraje começa aí: a impressão que se tem é de que a série se transformou em um desses programinhas da Disney – Hannah Montana e derivados – que insistem em pregar para adolescentes que sexo é algo fora do normal, que deve ser adiado o máximo possível. Esta é uma ideia a ser defendida como outra qualquer, apesar das minhas profundas discordâncias. O meu problema com o conceito todo é exatamente onde ele está inserido.

Meu medo, quando fiquei sabendo que um episódio sobre Madonna seria produzido por Glee, era exatamente que tudo o que a cantora significa fosse distorcido para um jogo babaca e previsível, que um roteiro com o potencial de Glee – o potencial grandioso do ousado, do desconcertante – fosse trocado por um discurso evangelizador, careta e, pior, emburrecedor.

Ao usar pulseirinhas pregando virgindade entre adolescentes, ídolos como Miley Cyrus – e como os atores de Glee praticamente fizeram com esse episódio – criaram uma geração de seguidores que têm a mesma opinião. Que crescem praticamente como donas de casa dos anos 1960 – com o pensamento, muitas vezes inconsciente, de que sexo é algo a ser tratado com muito cuidado, com muitos pudores, com muitos problemas, enfim.

Uma ideia muito bem superada – ou pelo menos eu achei que tivesse sido muito bem superada – com uma revolução sexual que durou as últimas décadas, e que trouxe bens como, por exemplo, a possibilidade de assumir o prazer sexual feminino como uma realidade. Para ter uma ideia do tamanho da perversão – isso sim é uma perversão – existe uma personagem de mais de 30 anos virgem que é tratada como se estivesse perfeitamente dentro dos padrões da normalidade. Isso sim deveria escandalizar telespectadores. Encerrar com Like a Prayer então foi como se o roteiro aderisse a um discurso religioso e moralizante que quase me fez tacar o computador pela janela.

Então, Ryan Murphy, vamos fazer o seguinte: quer ceder às pressões da Fox e das associações atrasadas de pais norte-americanos? Quer defender que adolescentes devem ser mini astros de High School Musical, e que ser um filho perfeito significa desconhecer que sexo é saudável? Quer anunciar para os quatro cantos do mundo – porque pagaram bem para você fazer isso – que adolescentes bonitinhos devem ser comportadinhos e santinhos? Vá fazer isso bem longe daquele que poderia ter sido o melhor – e mais inteligente – capítulo que você já escreveu.

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2 Respostas para “I Wanna Take You There

  1. Choqay!!!

    Como eles puderam fazer isso depois daquele episódio com “Push it” e por ter falado de outros temas relacionados a sexo de forma tão divertida. Nossa, que merda…

  2. Eu discordo com vc….eu acho que esse episodio mostra como certas meninas ainda sofrem da pressao social de perder a virgindade,o que mostra com a emma e o finn.E nao c sente preparada para isso…nao mostra q sexo é sagrado,acho que o episodio mostra que o sexo n é sagrado assim.Eu por exemplo nao sigo exemplo da sociedade de perder a virgindade aos 16 ou 14 anos…e sim aos 18.Tem pessoas que nao estao preparadas mentalmente.qual o problema disso?

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