Histórias com o fígado

Não é suficiente ser bom nisso. A arte de contar histórias não é matemática, não é química. Não dá para se contentar com um cálculo certo, com uma fórmula bem planejada. Em arte, geralmente tem um segundo fator envolvido na coisa toda que se chama paixão, algo que se estende para diante da competência.

É por isto que o final da sexta temporada de Grey’s Anatomy acaba de entrar no meu ranking de episódios mais fantásticos que já vi na vida. Shonda Rhimes não sabe fazer o arroz com feijão. Ela não quer parar no básico, não gosta de dançar passos simples. Prova disto é que, colocando meu amor pela série de lado, sei muito bem usar minhas competências de crítica de TV para admitir que uns bons 50% dos episódios que ela escreve, justamente aqueles de meio de temporada, para passar o tempo, não fazem parte dos grandes momentos da TV.

Shonda não sabe fazer o básico, repito. A criadora da série, e roteirista-chefe desde o primeiro episódio, nasceu para o grandioso, o fabuloso, o trágico. Ela não é mulher de pequenas escolhas, de passos tímidos. É escritora de grandes sagas, de cenas de tirar o fôlego, de momentos retumbantes.

E retumbante é tudo o que este final de temporada foi para mim. Um atirador entra no Seattle Grace e, de cara, ataca dois dos protagonistas. Ao todo, dois personagens fixos morrem durante o capítulo e vários figurantes vão abaixo. Mas, mesmo que os eventos não fossem suficientes, o importante não é a história. É a maneira de se contar.

De ponta a ponta, em cada texto, desde a primeira linha de narração de Meredith até a última palavra, depois de duas horas, proferida por Derek. Um cuidado de transformar a linguagem fria do roteiro de uma página em branco em uma pequena poesia, daquelas que, essência moderna que é, não exalta musas e mares distantes. Mas desenha duras e frias cidades e seus habitantes, pontua as agruras do nosso tempo e, principalmente, insere um alfinete direto nos nossos maiores medos, nas nossas maiores feridas.

E nada, nada neste mundo é mais interessante do que a dor de ser humano. Do que a dor de se descobrir que o problema da existência é intransponível, que não há fuga, apesar de todo este carnaval que armaram diante dos seus olhos para que você esqueça disso, este carnaval chamado mundo.

Não é tarefa das mais fáceis deixar a posição confortável de roteirista-até-bem-talentoso-mas-sem-muitas-ambições e passar a contar as histórias grandiosas, destas que descortinam este véu do mundo e apontam os dramas que realmente interessam – os da inevitabilidade da dor, da consicência da humanidade, da permanência do transitório. E é por isso que, dos órgãos mais úteis para o roteirista, eu recomendo deixar de lado as mãos, o coração e, de vez em quando, até mesmo o cérebro. Shonda Rhimes escreve com o fígado.

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7 Respostas para “Histórias com o fígado

  1. Meu Deus… assisti essa madrugada e ainda estou sem fôlego. Agora tudo faz mais sentido a entrada dos tediosos internos do hospital Mercy West, o drama que se desenrolou com a história do Mr Clark… Acho perfeito como as coisas caminham pra um final tão grandioso e espetacular como esse, desde de pequenos detalhes, como o fato dos três envolvidos no desligamento dos aparelhos da Mrs. Clark terem laços familiares/afetivos com a Meridiht.

    Shonda Rhimes consiguiu dar outra vez relevância na história a todos os personagens principais clássicos de Grey’s Anatomy, Mesmo os que estavam mais apagados durante a temporada quase toda, como a Dra. Bailey (L).

    O que dizer de cenas, como a de Christina Yang arriscando a própria vida, para salvar a vida do marido de sua melhor amiga (está mais que provado que a amizade das duas ja atingiu um patamar elevadíssimo, eu diria que elas são as verdadeiras almas gêmeas ali na série), ou da Dra Bailey negando que era cirurgiã, o terror no rosto dela, e depois surtando com os elavadores desligados, foi tudo tão intenso, ninguém no hospital estava seguro. Deu até gosto ver o Richard tratando o hospital como dele outra vez, se referindo aos funcionários como sendo praticamente filhos seus. Não consigo imaginar outra pessoa como Chief do Seatle Grace. A morte rápida e chocante de Reed… E obviamente não posso deixar de falar da personagem April, que sempre achei tão apática no seriado, mas que foi simplesmente perfeita nesse season finale.

    Tudo nesses dois últimos episódios me lembrou o porque de Grey’s Anatomy ainda ser minha série preferida. E nem citei as cenas de Lexie, Alex e Mark, a reconcialiação – graças a Deus – de Callie e Arizona, o chato Owen e a querida Teddy, a participação especial de Mandy Moore que foi corretíssima em seu personagem, e claro todos os méritos possíveis para Michael O’Neill, intérprete do senhor-atirado-viúvo-vingador Gary Clark, que com suas expressões nos levou a sentir desde medo, terror e ódio até um pouco de compaixão e compreesão com aquele homem amargurado.

    Nem mesmo a grande falha da equipe da Swat ter perdido grandes oportunidade de acabar com o atirador, me fez gostar um pouquinho menos sequer desse Season Finale, o melhor que ja assisti em toda a vida.

  2. Esta sexta temporada de Grey’s Anatomy, com certeza, foi bem polêmica. Ouvi críticas BEM negativas e conheço pessoas que deixaram de assistir à serie por causa desta temporada, mas apesar disso tudo, eu simplesmente adorei! Achei que, apesar de algumas mudanças significativas no elenco, a trama mostrou-se forte e cheia de novas lacunas.

    O season finale foi basicamente genial. Shonda Rhimes mostrou que não brinca em serviço e garantiu duas horas (aproximadas) de muita inteligência e coerência ao escrever este roteiro. As personagens cresceram e, neste episódio duplo, tiveram a oportunidade de explorar novas facetas!

    Achei demais… Fiquei sem palavras e precisei de algumas horas para digerir tudo o que aconteceu! Foram muitas mortes, muitos tiros e muitas decisões para um capítulo só! Algumas cenas foram fenomenais e, com certeza, muito sentidas.

    Depois disto, tudo, a vida no Seatle Grace Hospital será bem diferente e acho que todos ganharão com isso… E Van, SUPER concordo com você: “Shonda Rhimes escreve com o fígado” 🙂 Ela sabe que é foda e, de vez em quando, ela nos presentea com momentos únicos na TV!

  3. Pingback: Grey’s Anatomy – Final da 6ª Temporada « Muito Mais Sentimental!

  4. Não pude ler o seu texto de Lost inteiro por ainda não ter visto o episódio, mas esse eu com certeza não podia deixar pra trás não é? Essa SF de Grey’s pra mim também foi fantástica, a melhor que a série já teve. Seu texto também está fantástico, não conhecia o seu blog até então, acabei de descobrí-lo no twitter e já me tornei fã, adorei seu jeito de escrever! Estás de parabéns! Pode ter certeza que já me tornei seu visitante frequente!

    @lucas_santtos

  5. Ah, aceita uma troca de links entre os blogs também? Já add o seu na minha lista de parceiros lá!

    @lucas_santtos

  6. sou sua fã.. vc sabe, né? hahaha… #orgulho

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