O drama da vida cotidiana

No próximo dia 12 de julho, o canal pago Warner estreia Men of a Certain Age, uma série do ano passado que fez certo barulho ao estrear nos Estados Unidos pela TNT. Principalmente por conta do retorno à TV de Ray Romano, o protagonista da já clássica Everybody Loves Raymond.

Eu, que já admirava o trabalho do moço na comédia, passei a respeitá-lo ainda mais ao saber que desta vez ele estava indo para um lado completamente oposto: um drama mais profundo, de cerca de uma hora de duração, sobre os percalços de um homem entre os 40 e os 50 anos. Ou seja, o homem moderno de meia-idade.

A série segue a vida do personagem de Ray, Joe, ao lado de dois de seus melhores amigos, ex-colegas de faculdade que o acompanharam durante toda a sua vida adulta. São Owen, um pai de família que trabalha na loja de automóveis do pai, mas está bem longe de ser a primeira escolha para substituí-lo, e Terry, um ex-ator que se entregou para a indústria coorporativa e não tem coragem para se arriscar de volta às câmeras.

Dito isso, que puta série, hein? É descrita pelo canal como uma dramédia, e, na minha opinião, exerce todas as possibilidades que este grande gênero abre: alcançar a reflexão e a profundidade através do riso. Rir e, logo em seguida, pensar que aquilo não é engraçado. Que você deveria estar com lágrimas nos olhos. E então chorar.

Foi exatamente este ciclo de reações que se completou em mim enquanto eu estava assistindo ao piloto de Men of a Certain Age. O trio de protagonistas não caiu em uma ilha deserta, nem está tentando sair de uma prisão ou salvar o mundo de uma grande ameaça terrorista. Está incumbido de uma missão maior: dar conta da própria vida, que já é coisa grande demais.

Em determinado momento do episódio, Terry conta para os amigos a história de Sísifo, o homem que, todos os dias, tentava levar uma pedra para o alto de uma montanha. Mas, à noite, a pedra rolava de volta ao pé do monte. Era uma tarefa inútil, que ele compara com o trabalho de um vendedor de carros como Owen, que precisa bater todos os recordes de um mês para, no seguinte, voltar à estaca zero.

A meia-idade é, provavelmente, o momento da vida de qualquer um em que ele se dá conta mais profundamente deste movimento de circularidade, de rotina. Em que ele se dá conta de que a vida não é uma linha reta daqui em direção à felicidade plena e ideal lá no final da jornada. É muito mais interessante – e trágico – olhar para os dias que se passam com essa ideia de circularidade. Exatamente porque este pensamento te obriga encontrar a ideia de felicidade de um jeito mais próximo, mais íntimo, mais ligado ao seu cotidiano.

Men of a Certain Age lida com essa ideia, ligada a um conceito ainda mais interessante: o da escolha errada. Os três homens têm uma vida financeira estável, amigos de longa data, levam uma vida que muita gente gostaria de levar. E, ainda assim, vão acabar se dando conta de que, em algum momento da vida, devem ter feito a escolha errada. Joe, por exemplo, que deixou a escapar a mulher que ele ama, e agora precisa levar a vida sem tê-la por perto. Não é uma tragédia tão aproximável de grande eventos quanto a queda de um avião ou um ataque terrorista? É, sim, pelo menos para Joe. Essas tragédias cotidianas são mais reais, mais silenciosas, mais definitivas.

Anúncios

Uma resposta para “O drama da vida cotidiana

  1. Belo texto de apresentação, Vana!
    Ainda não tinha sequer ouvido falar da série e já fiquei com vontade de conferir.

    Valeu pela indicação (:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s