Boston Legal – O Elogio da Inteligência

Acabou. Terminei de ver na manhã de hoje a quinta e última temporada de Boston Legal. O vazio ainda está aqui, e eu estou achando que vai demorar um tempo para que os fantasmas de Alan Shore e Denny Crane deixem de me visitar.

Explico o motivo: Boston Legal, traduzida no Brasil com o imbecil título de Justiça Sem Limites, é uma das melhores coisas que eu já vi na tela da TV. E começa com a única característica que eu considero ser a essencial para produzir uma boa obra de arte, em qualquer, qualquer plataforma: não subestimar o telespectador.

Em um dos episódios finais da série, Carl vai ao tribunal com a convidada especial recorrente Katherine (vivida pela dama Betty White) pedir ao juiz que obrigue as redes de televisão dos Estados Unidos a produzir programação voltada para a população madura, com mais de 50 anos. O argumento é que é esta a faixa da população que tem mais dinheiro para gastar com entretenimento e cultura e, em contraposição, que recebe menos atenção dos produtores de conteúdo. Em determinado momento, Carl diz que a única série da televisão que parece pensar no telespectador pensante é Boston… e aí para. Olha para a câmera e diz: Não posso continuar. Quebraria a quarta parede.

Pois é. Lembra aquela coisa de que todas as histórias já foram contadas? Pois é, foram mesmo. A questão é que, até muito pouco tempo atrás, era impensável admitir que se estava contando uma história. A chapéuzinho vermelho é uma personagem, andando em uma floresta inventada. Mas não tem a menor consciência disso.

Logo, a única forma de se diferenciar, de garantir que sua história não vai cair no mais do mesmo (apesar de que o método não é tão novo assim) é dar a seus personagens a noção de que são personagens.

É o que Carl faz ao olhar para a câmera. Ali, ele está discutindo a ficção inteligente não só com o juiz que está na sua frente, com a cliente ao seu lado, mas com o telespectador. O mesmo movimento não aparece ali em Boston Legal pela primeira vez. Alan Shore terminou mais de uma temporada da série brindando ao próximo ano. No final da quarta temporada, quando o show estava ameaçado de cancelamento, Alan e Denny terminam o episódio se perguntando se aquele é o fim da linha.

Mas formato não é tudo. E por mais que David E. Kelley conduza esta discussão sobre ficção e realidade com maestria ao longo de sua série, é óbvio que a manutenção deste único elemento durante cinco anos não daria instrumentos suficientes para que a atração entrasse para a História como, na minha opnião, entrou mesmo.

Eu sou completa e absolutamente apaixonada por séries de tribunal. São o momento ideal para colocar em pauta muitos e muitos assuntos importantes neste mundo, sem ter que dedicar uma série para cada um deles. Toda semana, o que você quiser está na boca de dois dos melhores advogados que a ficção pode criar. E que advogados.

E que homem. Mais difícil do que montar bons personagens e bons diálogos, na minha opinião, é montar bons personagens que, de maneira coerente, entoam bons diálogos. E as falas de Alan Shore são música para os meus ouvidos. Canções que não poderiam ser interpretadas por ninguém com mais ritmo, que soubesse se apropriar mais da melodia do que James Spader. É o personagem mais íntegro, mais humano, mais distinto que eu já vi na tela da TV. É a inteligência, o discurso primordial. É a elegância da intelectualidade, a dignidade por excelência. Foi difícil me despedir.
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7 Respostas para “Boston Legal – O Elogio da Inteligência

  1. Vinícius Schiavini

    Muito bom texto. Fez jus a Boston Legal!

    E, como diria Alan Shore:
    – Lá vamos nós de novo!

  2. Com um óbvio toque extra de nonsense, Boston Legal está no mesmo patamar de West Wing na minha categorização pessoal de séries: atrações que, além de terem textos e atuações não menos do que primorosos, me fizeram crer que as pessoas certas podem mudar o mundo. As duas fazem muita falta – mas, felizmente, pra isso existem reprises.

  3. Assisti ao último episódio faz tanto tempo, e ainda tenho esse vazio.
    Alan Shore é o melhor personagem já criado em uma série de TV, e William Shatner com certeza fez história com seu Denny Crane…
    A série, como o Tiago disse, já está no patamar das melhores já criadas, lado a lado de West Wing!!

  4. Estou pensando seriamente em começar a ver Boston legal, volta e meia vejo reprises de episódios aleatórios na FOX, e um dia desses passou um dessa 5ª temporada que mostra o jantar de ação de graças na casa da Shirley e achei o máximo. Fiquei muito motivada a ver tudinho desde a 1ª temporada, mas sei lá , vale a pena? Afinal a série já acabou , a firma já foi vendida e já sei como foi o final… beijão…

  5. Pingback: Hary’s Law – Minha nova aposta | Spoiler Cotidiano

  6. Saudades de boston legal, Alan Shore foi o melhor personagem de todos os tempos, fiquei fã de James Spader (um gênio!).

  7. Assisti toda e e estou reassistindo. A primeira vez pra aprender. A segunda, pra apreender.

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