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Studio 60 e o ideal da televisão de qualidade

“A arte e o comércio estão brigando há séculos. Mas, eu tenho que te dizer, a arte está sendo esmagada nessa briga. Mude de canal, desligue a TV agora. Este país está sendo lobotomizado pela mesma indústria que deveria nos fazer lutar contra isso.”


Um drama sobre a arte de se fazer comédia na televisão. Mas, principalmente, de fugir da gigantesca massa de discursos vazios que invade o mundo todos os dias. Isto é Studio 60 On the Sunset Strip.

O discurso que abre este post é feito por Wes, produtor da atração, no primeiro capítulo de Studio 60. Quando uma de suas esquetes é cortada do ar porque pode ofender a audiência mais religiosa, ele se revolta contra a emissora e invade a transmissão ao vivo, pedindo para que o telespectador desligue sua TV.

“Viver com liberdade de expressão significa que, de vez em quando, você vai ser oifendido”, diz, com toda a sabedoria que um roteiro de Aaron Sorkin, o mesmo criador de The West Wing, permite à série. Brilhante, em cada frase.

Claro que, no dia seguinte, Wes está no olho da rua – e é aí que Matt e Danny, dois ex-funcionários do programa que foram demitidos anos antes exatamente pelo mesmo motivo, são convidados para retornar e colocar ordem na casa.

A partir daí, o programa acompanha a trajetória complicada dos dois para colocar no ar um produto – e uma obra de arte. As pressões da emissora, dos próprios atores, os brancos criativos desesperadores pelos quais Matt passa, os motivos que o fazem escrever, o único motivo pelo qual ele escreve melhor.

São etapas de um processo que, no todo, representa a construção de qualquer ficção. Mas que tem o mérito de situar o telespectador nesta realidade muito específica que é a produção de TV do século XXI. A indústria que, de tão limitada e simplista, foi nomeada de indústria do entretenimento.

A luta de Matt e Danny é exatamente para reverter este processo. Eles não têm a pretensão de mudar o mundo, mas se contentam em conseguir terminar cada semana com o melhor programa de humor de todos os tempos na mão. Almejando essa qualidade  utópica acima de tudo, colocando o perfeccionismo como meta de vida, eles traduzem o sucesso desta missão em prova de dignidade.

Os dois acreditam no que fazem acima de tudo. E o humor aqui é entendido não como uma ferramenta de distração da realidade. Não se faz Studio 60 para fazer rir, para fornecer ao telespectador no sofá de casa a diversão do final de semana. Faz-se Studio 60 para incomodar, para fazê-lo lembrar que, às vezes, você é ofendido. Que muitas vezes a inteligência e a ousadia de um texto são medidos pela capacidade que ele tem de ofender aqueles que fecham os olhos para a realidade. Ou, pior, que fecham os olhos para a sagacidade de uma boa ficção.

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