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David E. Kelley e a Mulher Maravilha

David E. Kelley – mais conhecido em culturas intelectualmente superiores como O Mestre – anunciou seu novo projeto. Depois de Boston Legal, Ally McBeal, The Practice e a ainda inédita Harry’s Law, o roteirista vai se dedicar ao remake de Wonder Woman, a Mulher Maravilha, série clássica dos anos 1970.

Que devo dizer eu? Não imagino mesmo Kelley por trás de alguma coisa com chances de dar errado. Quem escreve os diálogos fantásticos de Allan Shore e Denny Crane pode dar seus tropeços por aí? Pode ser que sim.

A Mulher Maravilha é um dos personagens mais fracos e planos da DC Comics. Nada do que essa criatura se meta dá muito certo. Ela é feita para ser a gostosona dos quadrinhos e atrair os nerds que não vêem mulheres há tempos. E foi esta a missão que ela cumpriu. Ok, eu entendo todo o mérito dela de colocar uma protagonista feminina em um papel que não fosse o de dona de casa comportada e domesticada. Mas não sei qual dos dois é mais ofensivo: este ou o da mulher-objeto que ela colocou na tela.

Mas, como eu disse, David E. Kelley é Deus. O homem é um gênio, e a personagem da Wonder Woman é tão vazia que pode ser preenchida com quase qualquer drama neste mundo. Quem sabe, quem sabe…

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Boston Legal – O Elogio da Inteligência

Acabou. Terminei de ver na manhã de hoje a quinta e última temporada de Boston Legal. O vazio ainda está aqui, e eu estou achando que vai demorar um tempo para que os fantasmas de Alan Shore e Denny Crane deixem de me visitar.

Explico o motivo: Boston Legal, traduzida no Brasil com o imbecil título de Justiça Sem Limites, é uma das melhores coisas que eu já vi na tela da TV. E começa com a única característica que eu considero ser a essencial para produzir uma boa obra de arte, em qualquer, qualquer plataforma: não subestimar o telespectador.

Em um dos episódios finais da série, Carl vai ao tribunal com a convidada especial recorrente Katherine (vivida pela dama Betty White) pedir ao juiz que obrigue as redes de televisão dos Estados Unidos a produzir programação voltada para a população madura, com mais de 50 anos. O argumento é que é esta a faixa da população que tem mais dinheiro para gastar com entretenimento e cultura e, em contraposição, que recebe menos atenção dos produtores de conteúdo. Em determinado momento, Carl diz que a única série da televisão que parece pensar no telespectador pensante é Boston… e aí para. Olha para a câmera e diz: Não posso continuar. Quebraria a quarta parede.

Pois é. Lembra aquela coisa de que todas as histórias já foram contadas? Pois é, foram mesmo. A questão é que, até muito pouco tempo atrás, era impensável admitir que se estava contando uma história. A chapéuzinho vermelho é uma personagem, andando em uma floresta inventada. Mas não tem a menor consciência disso.

Logo, a única forma de se diferenciar, de garantir que sua história não vai cair no mais do mesmo (apesar de que o método não é tão novo assim) é dar a seus personagens a noção de que são personagens.

É o que Carl faz ao olhar para a câmera. Ali, ele está discutindo a ficção inteligente não só com o juiz que está na sua frente, com a cliente ao seu lado, mas com o telespectador. O mesmo movimento não aparece ali em Boston Legal pela primeira vez. Alan Shore terminou mais de uma temporada da série brindando ao próximo ano. No final da quarta temporada, quando o show estava ameaçado de cancelamento, Alan e Denny terminam o episódio se perguntando se aquele é o fim da linha.

Mas formato não é tudo. E por mais que David E. Kelley conduza esta discussão sobre ficção e realidade com maestria ao longo de sua série, é óbvio que a manutenção deste único elemento durante cinco anos não daria instrumentos suficientes para que a atração entrasse para a História como, na minha opnião, entrou mesmo.

Eu sou completa e absolutamente apaixonada por séries de tribunal. São o momento ideal para colocar em pauta muitos e muitos assuntos importantes neste mundo, sem ter que dedicar uma série para cada um deles. Toda semana, o que você quiser está na boca de dois dos melhores advogados que a ficção pode criar. E que advogados.

E que homem. Mais difícil do que montar bons personagens e bons diálogos, na minha opinião, é montar bons personagens que, de maneira coerente, entoam bons diálogos. E as falas de Alan Shore são música para os meus ouvidos. Canções que não poderiam ser interpretadas por ninguém com mais ritmo, que soubesse se apropriar mais da melodia do que James Spader. É o personagem mais íntegro, mais humano, mais distinto que eu já vi na tela da TV. É a inteligência, o discurso primordial. É a elegância da intelectualidade, a dignidade por excelência. Foi difícil me despedir.

O mehor seriado de tribunal de todos os tempos.

Cena 1

Reunião para discutir os casos da firma. Alan Shore, um dos principais sócios, não para de reclamar. Um de seus colegas o interrompe:

Mas, Alan, o que você quer, então?
Eu quero ir para a TV a cabo! É lá que tudo acontece!

Todos concordam, e voltam para suas anotações, como se estivessem mesmo falando do destino de Boston Legal que, aliás, era exibido na TV aberta.

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Cena 2

Alan Shore e (pausa) Denny Crane estão no corredor da empresa onde trabalham quando um dos personagens secundários passa ao lado deles. Denny comenta:

Nossa! Não vejo aquele cara desde o episódio número 37!

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Dá para não ser completamente apaixonada por estes dois?