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[First Look] Raising Hope

-Mãe, pedi demissão. Tem que ter mais coisas na vida além de limpar a mesma piscina de novo e de novo.
– Não, filho. Não tem.

De vez em quando é divertido quando alguém tenta pensar contra a corrente. E eu sempre pensei nos criadores de My Name Is Earl com essa cabeça. São piadas boas, frescas e, principalmente, não são previsíveis.

Pois assim é a nova série do roteirista em questão, Gregory Thomas Garcia. Raising Hope conta a história de um garoto comum, que trabalha com a família como limpador de piscinas, e acaba se envolvendo com uma assassina em série procurada por ter acabado com a vida de dois ex-namorados.

A moça engravida, é presa e condenada à morte, deixando Jimmy com a responsabilidade de cuidar de uma garotinha a que ela deu o nome de Princess Beyoncé. Pois é. Claro que no fim o pai apela para o bom senso e muda o nome da menina para Hope, por isso o título da comédia.

Jimmy precisar então criar Hope ao lado de dois pais malucos que o tiveram aos 15 anos e uma avó que já não sabe mais o que é lucidez, e passa a maior parte do tempo de um lado para o outro vestindo apenas um sutiã. Fora o primo que mora em uma barraca no meio da sala.

O roteiro é bem bacana, lembra algumas comédias independentes, assim como My Name Is Earl lembrava. Não é escrachado, não deve agradar todo mundo, e foi por isso mesmo que me agradou. Mas eu devo chamar a atenção aqui para outro aspecto do seriado: a atuação. Principalmente a da mãe de Jimmy, avó de Hope.  Martha Plimpton está tão à vontade no papel de mãe suburbana meio maluca, meio com pé no chão, que dá gosto de ver.

Se você já cansou das mesmas sitcoms de sempre, com as mesmas piadas de sempre, está na hora de anotar a recomendação.

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[First Look] Lone Star

Se tem alguma coisa que tem o poder de me deixar irritada é uma série boa enfrentar o cancelamento prematuro por conta da falta de capacidade do público norte-americano de entender o que  está se passando na sua frente.

(Não que o brasileiro possa falar muita coisa. A TV aberta daqui nem se arrisca a produzir produtos de qualidade do nível deste que despertou minha raiva desta vez, mas eu nasci rabugenta assim, vou criticar mesmo. Não gostou, procure um blog mais colorido e feliz. Certeza que tem vários por aí.)

Lone Star. A história de um jovem criado pelo pai, que aprendeu desde criança os segredos para se tornar um golpista de primeira qualidade. Casado por interesse com a filha de um poderoso empresário do petróleo, Bob tem uma namorada em outro estado e leva a vida dupla esperando pela oportunidade de ouro de abocanhar a fortuna do velho (John Voight, diga-se de passagem).

Pois em certo momento de sua vida, Bob se cansa, como o roteiro chega a mencionar, de “ser amado pelo que finge ser”. Quando lhe é oferecido o cargo na empresa do sogro que ele espera há tempos, o primeiro pensamento que vem a sua cabeça é: “E se eu aceitasse mesmo o trabalho?” Ou seja, o que aconteceria se ele resolvesse levar uma vida decente?

O problema é que seu pai, cúmplice na empreitada, não vai aceitar de bom grado que o filho desperdice todo o trabalho que os dois tiveram nestes últimos meses. O pai não conhece vida honesta, e não acha que valha a pena que seu filho a conheça também.

Drama bem montado, cheio de personagens interessantes, com fortes motivações para resolver seus conflitos, atores preparados, direção criativa e sagaz. Resultado? Foi cancelada nesta semana, depois de apenas dois episódios exibidos.

O capítulo de estreia alcançou 4 milhões de telespectadores no canal Fox, uma emissora acostumada a bater sempre na casa das dezenas. Triste, muito triste. Mas fica aqui minha homenagem. Adoraria ter acompanhado a jornada de Bob em busca de sua dignidade pelo menos por uma temporada completa.

Boston Legal – O Elogio da Inteligência

Acabou. Terminei de ver na manhã de hoje a quinta e última temporada de Boston Legal. O vazio ainda está aqui, e eu estou achando que vai demorar um tempo para que os fantasmas de Alan Shore e Denny Crane deixem de me visitar.

Explico o motivo: Boston Legal, traduzida no Brasil com o imbecil título de Justiça Sem Limites, é uma das melhores coisas que eu já vi na tela da TV. E começa com a única característica que eu considero ser a essencial para produzir uma boa obra de arte, em qualquer, qualquer plataforma: não subestimar o telespectador.

Em um dos episódios finais da série, Carl vai ao tribunal com a convidada especial recorrente Katherine (vivida pela dama Betty White) pedir ao juiz que obrigue as redes de televisão dos Estados Unidos a produzir programação voltada para a população madura, com mais de 50 anos. O argumento é que é esta a faixa da população que tem mais dinheiro para gastar com entretenimento e cultura e, em contraposição, que recebe menos atenção dos produtores de conteúdo. Em determinado momento, Carl diz que a única série da televisão que parece pensar no telespectador pensante é Boston… e aí para. Olha para a câmera e diz: Não posso continuar. Quebraria a quarta parede.

Pois é. Lembra aquela coisa de que todas as histórias já foram contadas? Pois é, foram mesmo. A questão é que, até muito pouco tempo atrás, era impensável admitir que se estava contando uma história. A chapéuzinho vermelho é uma personagem, andando em uma floresta inventada. Mas não tem a menor consciência disso.

Logo, a única forma de se diferenciar, de garantir que sua história não vai cair no mais do mesmo (apesar de que o método não é tão novo assim) é dar a seus personagens a noção de que são personagens.

É o que Carl faz ao olhar para a câmera. Ali, ele está discutindo a ficção inteligente não só com o juiz que está na sua frente, com a cliente ao seu lado, mas com o telespectador. O mesmo movimento não aparece ali em Boston Legal pela primeira vez. Alan Shore terminou mais de uma temporada da série brindando ao próximo ano. No final da quarta temporada, quando o show estava ameaçado de cancelamento, Alan e Denny terminam o episódio se perguntando se aquele é o fim da linha.

Mas formato não é tudo. E por mais que David E. Kelley conduza esta discussão sobre ficção e realidade com maestria ao longo de sua série, é óbvio que a manutenção deste único elemento durante cinco anos não daria instrumentos suficientes para que a atração entrasse para a História como, na minha opnião, entrou mesmo.

Eu sou completa e absolutamente apaixonada por séries de tribunal. São o momento ideal para colocar em pauta muitos e muitos assuntos importantes neste mundo, sem ter que dedicar uma série para cada um deles. Toda semana, o que você quiser está na boca de dois dos melhores advogados que a ficção pode criar. E que advogados.

E que homem. Mais difícil do que montar bons personagens e bons diálogos, na minha opinião, é montar bons personagens que, de maneira coerente, entoam bons diálogos. E as falas de Alan Shore são música para os meus ouvidos. Canções que não poderiam ser interpretadas por ninguém com mais ritmo, que soubesse se apropriar mais da melodia do que James Spader. É o personagem mais íntegro, mais humano, mais distinto que eu já vi na tela da TV. É a inteligência, o discurso primordial. É a elegância da intelectualidade, a dignidade por excelência. Foi difícil me despedir.

I Wanna Take You There

O mundo dá voltas. Na semana passada, eu estava empolgadíssima com a volta de Glee, como é possível conferir com o post anterior deste blog. Nesta, estou com vontade de escrever uma carta para Ryan Murphy com os dizeres: shame on you.

E ele com certeza deve estar muito envergonhado. O criador da comédia musical da Fox sabe escrever. E sabe ousar. Anos de Nip/Tuck nos mostraram isso tão bem que não dá para negar. Agora que está na TV aberta, Ryan continua com sua dose de sarcasmo, de politicamente incorreto, enfim, foge do discurso batido das outras séries de TV aberta. Duvida? Analise mais de dois minutos das falas de Sue Sylvester, personagem que ofendeu toda e qualquer minoria norte-americana em 14 episódios de comédia.

Desde o começo de Glee, portanto, por conta principalmente de Sue, eu defendi a série dizendo que ela não era um produto feito para adolescentes. Mas, sim, uma trama adulta sobre o universo deles, que poderia ser consumida também, mas não exclusivamente, por jovens, principalmente por conta do foco musical e da levada mais leve da história.

Redonda e profundamente enganada. E Murphy me provou isto através do – não há outra palavra – brochante episódio desta semana, The Power of Madonna, uma grande homenagem de 45 minutos à Rainha do Pop. Eu fui atrás do capítulo empolgadíssima. Madonna, como Sue deixa claro no início do capítulo, é o símbolo do poder das mulheres, da luta pela igualdade, pela ousadia feminina.

Pois a principal história do capítulo traz, enquanto o Glee Club procura ensaiar canções da musa – sempre muito bem executadas, deixemos claro – três casais tentando se acertar e passando por um momento dito importante na vida de uma pessoa: a perda da virgindade. No final das contas, os três concluem que, ou não devem fazer isso, ou devem esperar mais pelo tão anunciado e especial momento.

O ultraje começa aí: a impressão que se tem é de que a série se transformou em um desses programinhas da Disney – Hannah Montana e derivados – que insistem em pregar para adolescentes que sexo é algo fora do normal, que deve ser adiado o máximo possível. Esta é uma ideia a ser defendida como outra qualquer, apesar das minhas profundas discordâncias. O meu problema com o conceito todo é exatamente onde ele está inserido.

Meu medo, quando fiquei sabendo que um episódio sobre Madonna seria produzido por Glee, era exatamente que tudo o que a cantora significa fosse distorcido para um jogo babaca e previsível, que um roteiro com o potencial de Glee – o potencial grandioso do ousado, do desconcertante – fosse trocado por um discurso evangelizador, careta e, pior, emburrecedor.

Ao usar pulseirinhas pregando virgindade entre adolescentes, ídolos como Miley Cyrus – e como os atores de Glee praticamente fizeram com esse episódio – criaram uma geração de seguidores que têm a mesma opinião. Que crescem praticamente como donas de casa dos anos 1960 – com o pensamento, muitas vezes inconsciente, de que sexo é algo a ser tratado com muito cuidado, com muitos pudores, com muitos problemas, enfim.

Uma ideia muito bem superada – ou pelo menos eu achei que tivesse sido muito bem superada – com uma revolução sexual que durou as últimas décadas, e que trouxe bens como, por exemplo, a possibilidade de assumir o prazer sexual feminino como uma realidade. Para ter uma ideia do tamanho da perversão – isso sim é uma perversão – existe uma personagem de mais de 30 anos virgem que é tratada como se estivesse perfeitamente dentro dos padrões da normalidade. Isso sim deveria escandalizar telespectadores. Encerrar com Like a Prayer então foi como se o roteiro aderisse a um discurso religioso e moralizante que quase me fez tacar o computador pela janela.

Então, Ryan Murphy, vamos fazer o seguinte: quer ceder às pressões da Fox e das associações atrasadas de pais norte-americanos? Quer defender que adolescentes devem ser mini astros de High School Musical, e que ser um filho perfeito significa desconhecer que sexo é saudável? Quer anunciar para os quatro cantos do mundo – porque pagaram bem para você fazer isso – que adolescentes bonitinhos devem ser comportadinhos e santinhos? Vá fazer isso bem longe daquele que poderia ter sido o melhor – e mais inteligente – capítulo que você já escreveu.

O retorno de Glee

Depois de quatro longos meses esperando, os fãs da comédia musical da Fox finalmente podem cantar e dançar de novo. E muito bem, aliás. O capítulo de retorno, número 14, é mais musical do que eu esperava. E mais bem trabalhado, e mais bem escrito, e mais gostoso de assistir. Resumindo: Rachel, Will, Finn, Emma e, minha preferida, Sue Sylvester, voltaram em boa forma.

Em Hell-O, Will propõe um recomeço. Os membros do Glee percebem, como o roteirista da série já deve saber há uns bons anos, que todo sucesso é inútil. Na apresentação seguinte, de nada vale se eles já ganharam um campeonato – precisam manter a qualidade, matar um leão por dia. Propõe então que todos tragam ideias de músicas que tem Hello no título.

Enquanto isso, Rachel conhece Jesse St. James, o protagonista masculino da escola concorrente, e se envolve com ele, mesmo sem saber se a aproximação dos dois é só uma manobra de espionagem entre os times. Já Will se depara com uma novidade bastante perturbadora: Emma é virgem, e o relacionamento dos dois não é tão simples quanto ele gostaria de acreditar.

O importante é que o episódio conseguiu manter um bom ritmo com muitas canções e, principalmente, com as piadas politicamente incorretas que me fizeram acreditar na atração desde o princípio. Mas, aqui o ponto negativo, insiste em algumas historinhas bem sem graça, como este bom mocismo de Will.

Na semana passada, aliás, o Conselho de Pais e Mães Norte-Americanos expediu um comunicado deixando claro que não aprova Glee para os adolescentes do país.  Finalmente alguém entendeu o brilho daquele roteiro.

Eu, aliás, tenho muita dó de Ryan Murphy, o criador da atração. Ele tem nas mãos o desafio de criar um entretenimento de qualidade, que agrade em massa quem quer que esteja na frente da televisão, enquanto mantém a certa ousadia e frescor que constavam de seu roteiro inicial. Qualidades responsáveis, por exemplo, pelas tiradas explicitamente preconceituosas de Sue Sylvester, ou sexuais de Rachel, ou homossexuais de Kurt.

Desta mistura, não dá para sair nada tão genial que deveria estar na TV a cabo, nem tão bobo que não mereça o sucesso que tem feito nos últimos meses. Enquanto isso eu fico aqui, contando os dias para o episódio que vai homenagear Madonna, principal expoente da libertação sexual feminina das últimas décadas. Esperando muito politicamente incorreto, muita tirada inteligente. E torcendo para nenhum pudor infantil tirar de Glee a chance de construir um dos episódios mais descarados da TV.

Human Target

Quando estreou nos Estados Unidos, no começo deste ano, Human Target foi apontada como a nova 24 Horas. Com o cancelamento iminente de Jack Bauer, a Fox teria lançado a novidade para manter a audiência do agente anti-terrorista mais famoso do mundo.

Nada a ver, deixemos claro. Jack Bauer só é essa lenda toda porque combina entretenimento de qualidade com bom roteiro com, acima de tudo, uma ligação política da realidade que vai permitir, daqui a 20 anos, que o mundo analise a situação norte-americana nos anos 2000 assistindo às oito temporadas de 24 Horas.

Estreia do canal pago Warner nesta semana, Human Target, inspirada nos quadrinhos de mesmo nome escritos por Peter Milligan para a Vertigo, é entretenimento de qualidade. Mas meio no nível Missão Impossível, entende? Explosões, conspirações, caras e bocas e estratégias consistentes o suficiente para me entreter pelos 40 minutos de capítulo. Mas nada a mais do que isso, sem muita coisa para dizer.

Não dá para pedir muita profundidade, eu sei, de uma produção da Fox (ou seja, para TV aberta) para prender homens de 20 a 50 anos na frente da tela baseada na quantidade de ação por metro quadrado. Mas com 24 Horas o canal conseguiu. Mas Jack Bauer é Jack Bauer, né?

Adeus a Jack Bauer

Eu sei que estou pelo menos uma semana atrasada para comentar a notícia, mas a semana foi corrida e só consegui falar do assunto agora.

Sim, eu estou incrivelmente chateada com o final de 24 Horas. Mas foi em boa hora.  Além das milhares de questões práticas que acabaram resultando em seu cancelamento – falta de verba, esgotamento das histórias, etc – a que mais me interessa é cultural.

Jack Bauer já não faz mais sentido no mundo pós-Obama. Em 2001, quando a série estreou, um atentado terrorista ainda estava reverberando pelo mundo – e os Estados Unidos precisavam mais do que nunca de um salvador da pátria que resgatasse os norte-americanos da ameaça iminente.

O mundo político mudou – e ficou mais complexo. A simples explicação de que George W. Bush resolveria todos os problemas de uma era com sua Guerra ao Terror caiu por terra, e custou aos republicanos a vitória nas últimas eleições presidenciais. Sim, as mesmas que elegeram Barack Obama, um democrata pró-diálogo, para o cargo mais importante do mundo.

Se ele está dando conta do recado, ou não, isto é outra história. Mas esta, a de Jack Bauer, acaba no momento em que pé na porta e tapa na cara não resolvem mais a situação – ou não dão conta de explicar para os americanos no que se transformou o mundo em que eles vivem.